A visita de Estado do Presidente da Republica Portuguesa, Antonio Jose Seguro, a Cabo Verde, encerrada esta semana com a Cimeira dos Oceanos na cidade da Praia, ficou marcada por um anuncio historico: Portugal vai criar uma linha de credito de 100 milhoes de euros especificamente destinada a apoiar o desenvolvimento economico de Cabo Verde nos proximos cinco anos.

O anuncio foi feito na sessao de encerramento do Forum Economico Cabo Verde-Portugal, que decorreu no Auditorio do Banco de Cabo Verde com a presenca dos dois Chefes de Estado e de dezenas de representantes do mundo empresarial portugues e cabo-verdiano. Para Cabo Verde, que tem um PIB de cerca de 2,2 mil milhoes de euros, uma linha de credito de 100 milhoes representa um investimento equivalente a quase 5% da dimensao da economia nacional — um valor de impacto potencialmente transformador.

Em que areas vai ser investido o dinheiro?

A linha de credito vai ser gerida pela Caixa Geral de Depositos, em parceria com o Banco de Cabo Verde, e estara disponivel para financiar projectos em tres areas prioritarias identificadas pelos dois governos como fundamentais para o futuro do arquipelago.

A primeira area e as energias renovaveis. Cabo Verde tem um dos maiores potenciais de producao de energia solar e eolica de Africa — o sol brilha mais de 350 dias por ano nas ilhas, e os ventos constantes do Atlantico criam condicoes excepcionais para a producao de energia eolica. No entanto, o arquipelago ainda depende significativamente de combustiveis fosseis importados para a producao de electricidade, o que encarece os custos de energia e aumenta a vulnerabilidade economica do pais. O investimento portugues vai apoiar a construcao de novos parques solares e eolicos, bem como a modernizacao das redes de distribuicao electrica.

A segunda area prioritaria e o turismo sustentavel. O boom turistico gerado pelo Mundial 2026 criou uma oportunidade unica para Cabo Verde, mas tambem um desafio: como acomodar o crescente numero de visitantes sem comprometer os ecossistemas frageis do arquipelago? A linha de credito portuguesa vai apoiar o desenvolvimento de infra-estruturas turisticas fora das ilhas do Sal e da Boa Vista, promovendo uma distribuicao mais equilibrada do turismo pelo arquipelago e reduzindo a pressao sobre os destinos mais sobrecarregados.

A terceira area e a transformacao digital. Cabo Verde ja tem uma boa base tecnologica — o NOSI, o Nucleo Operacional para a Sociedade de Informacao, e um dos organismos de digitalizacao do Estado mais avancados de Africa. Mas ha muito espaco para crescer, especialmente no que toca a conectividade nas ilhas mais afastadas, ao comercio electronico e ao desenvolvimento de um ecossistema de startups tecnologicas que possa posicionar Cabo Verde como hub digital atlantico.

A visita de Estado: um momento de viragem diplomatica

Para alem do anuncio da linha de credito, a visita de Estado do Presidente portugues a Cabo Verde teve um significado simbolico importante. Foi a primeira visita de Estado de um Presidente da Republica Portuguesa a Cabo Verde em quase uma decada — um sinal claro de que as relacoes entre os dois paises entram numa nova fase, mais intensa e mais estrategica.

O Presidente da Republica de Cabo Verde, Jose Maria Neves, condecorou o homolgo portugues com a Ordem Amilcar Cabral de Primeiro Grau — a mais alta condecoração do Estado cabo-verdiano — em reconhecimento pelo contributo historico de Portugal para o desenvolvimento do arquipelago. A cerimonia de condecoração realizou-se no Palacio Presidencial da Praia e foi transmitida em directo pela RTC, a televisao publica cabo-verdiana.

Os dois presidentes participaram tambem na Cimeira dos Oceanos de Cabo Verde, um evento internacional organizado pelo governo cabo-verdiano que reuniu representantes de dezenas de paises para discutir a gestao sustentavel dos oceanos — uma questao existencial para um arquipelago cuja economia e identidade estao profundamente ligadas ao mar.

A diaspora como actor economico

Um dos temas centrais do Forum Economico foi o papel da diaspora cabo-verdiana como actor economico. Com mais de um milhao de cabo-verdianos espalhados pelo mundo — o dobro da populacao residente nas ilhas — as remessas enviadas pela diaspora representam cerca de 15% do PIB de Cabo Verde. Mas o potencial economico da diaspora vai muito alem das remessas.

Os empresarios cabo-verdianos em Portugal — um dos maiores grupos da diaspora, com cerca de 250 mil pessoas — tem capital, conhecimento do mercado europeu e ligacoes ao sistema financeiro portugues. A nova linha de credito pode ser um instrumento para mobilizar este capital diasporico em direccao ao investimento nas ilhas, criando um circulo virtuoso que beneficia tanto a economia cabo-verdiana como os proprios emigrantes.

O primeiro-ministro Francisco Carvalho, numa intervencao que recebeu prolongada ovacao da plateia, resumiu bem o momento historico que Cabo Verde vive: "Depois do Mundial, o mundo olha para nos de uma forma diferente. Nao vamos desperdicar esta oportunidade. Portugal e o nosso parceiro mais proximo e mais natural neste caminho. Juntos, vamos construir o Cabo Verde que o nosso povo merece."

O que esperar nos proximos meses

A linha de credito de 100 milhoes de euros devera estar operacional no primeiro trimestre de 2027, apos a conclusao dos processos burocraticos e a assinatura dos acordos formais entre os dois governos. Os primeiros projectos financiados deverao arrancar ainda em 2027, com foco nas energias renovaveis, onde o impacto economico e ambiental pode ser mais rapido e mais visivel.

Para os cabo-verdianos — tanto os que vivem nas ilhas como os que vivem na diaspora — este anuncio representa uma oportunidade concreta de aceleracaeo do desenvolvimento do arquipelago. Para Portugal — que mantem com Cabo Verde uma das relacoes mais estreitas e mais genuinas da sua rede diplomatica — e uma forma de aprofundar uma parceria que beneficia ambos os paises e que tem raizes que se estendem por mais de cinco seculos de historia partilhada no Atlantico.